Além do racismo, luta dos pretos brasileiros é pela sobrevivência, diz liderança da Unegro

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O Programa Voz do Vigilante MG da última terça-feira (16) foi aberto com a abordagem de um tema de extrema importância e que está na ordem do dia, o preconceito racial.

Para falar sobre o assunto e a respeito do Dia da Consciência Negra (20 de novembro), o Sindicato contou com a participação do coordenador de Juventude da União de Negros pela Igualdade (Unegro), Clauderson Black, que conversou com o presidente do Sindicato, Edilson Silva, e o secretário-geral, Romualdo Alves Ribeiro (foto), pela internet, diretamente de Poços de Caldas.

Confira os principais momentos do bate-papo:

- Clauderson Black: "Fico muito feliz e muito honrado em contribuir neste debate em um mês tão importante, o mês da Consciência Negra, que é também representado pelo dia 20 de Novembro".

- Edilson Silva: Qual é a importância do Dia da Consciência Negra?

- Black: "O Dia da Consciência Negra é marcado pelo dia de resistência. A luta antirracista, a consciência negra, é construída diariamente pela população negra e pelos simpatizantes. É o dia que marca a consequência da nossa da luta, as nossas conquistas pela igualdade racial no Brasil e também nossos direitos.

Foi com muita luta, dedicação e muito sangue derramado nos quilombos, nas periferias, que chegamos hoje até um Brasil em que minimamente exista uma igualdade entre as raças. É um dia que marca o processo histórico de conquistas do movimento negro brasileiro pela liberdade e igualdade social no Brasil".

- Romualdo Alves Ribeiro: Hoje, se fala muito em racismo estrutural. O que isso significa?

- Black: "O racismo estrutural é basicamente um 'combo' de práticas institucionais, históricas e culturais, que dentro da sociedade, frequentemente, coloca o nosso grupo, a população negra, numa posição étnico racial menor que a das outras pessoas.

Toda a estrutura da sociedade nos impossibilita ter acesso à educação de qualidade na periferia, ao emprego de qualidade. A população negra, geralmente, está nos trabalhos dos subempregos. Geralmente, as mulheres negras estão no subemprego. O jovem está no subemprego, sem a carteira assinada. Não consegue entrar na universidade com facilidade e é por isso que temos hoje a política de cotas.

A estrutura da sociedade inviabiliza que possamos ter uma ascensão social. A luta do movimento negro atualmente é para quebrar os paradigmas, meter o pé na porta para quebrar esse racismo estrutural que nos impossibilita de ter acesso a uma vida de qualidade.

Sabemos, sim, que avançamos muito, conseguimos entrar na universidade, adentrar no Poder Judiciário como grandes juízes; ter grandes professores. Mas, a estrutura como um todo ainda impossibilita que a maioria do Brasil, da população negra, possa também representar a sociedade em vários aspectos e espaços.

A estrutura brasileira impossibilita que a massa brasileira, de maioria negra, tenha protagonismo na sociedade. Infelizmente, quando falamos sobre o protagonismo negro, a sociedade nos limita em vários aspectos. A estrutura é contra o povo mesmo, o que impossibilita a nossa luta na conquista de mais espaço e pela soberania do nosso país".

- Silva: Além do preconceito a cor da pele, quais são os principais desafios que os pretos/negros brasileiros enfrentam hoje?

- Black: "Com certeza é a luta pela sobrevivência. Quero frisar isso porque no Novembro Negro a gente resgata muitas vozes e lutas históricas. Quando a gente fala que a luta não é somente com a questão da pele, estamos falando que é também a questão do emprego, do genocídio da juventude negra.

Infelizmente, quem mais morre no Brasil é a população negra, é a juventude negra e periférica. Numa favela, a gente vê que a maioria das pessoas que moram ali é preta. São negras, pobres. Para além de ter uma igualdade com relação a cor, a cor do Brasil, essa diversidade que é o país, a nossa luta hoje é também pela sobrevivência.

Exemplo disso é a pandemia: ela mais matou pobres e negros. Quem a polícia mais mata atualmente quando entra na periferia? Ela mata mais negros. Então,

acredito que a luta atual, além de permanecer com os direitos conquistados, é para garantir a vida, seja contra a violência, a falta de acesso à saúde ou a falta de acesso à educação.

A luta é pela sobrevivência porque, infelizmente, ou a população negra, nessa situação atual do país, morre de fome, à bala ou de Covid. É a luta pela sobrevivência, tendo em vista que a estrutura do Estado já é contra a população negra do nosso país. Então, essa luta é importante.

Tem as outras lutas históricas também: a busca pela ascensão social, pela conquista de espaços de poder, para eleger mais vereadores, vereadoras, deputados e deputadas negros, porque o parlamento do Brasil ainda é muito racista.

Estruturalmente, elegem pessoas padronizadas, de famílias elitizadas, brancas. Então, é uma luta pela sobrevivência, não só como pessoa, mas social e politicamente e em outros aspectos.

A nossa luta pela sobrevivência hoje é clara, pelo momento que a gente vive, em que, infelizmente, esse  governo nos joga à margem, nos tira oportunidades e nos coloca em situações cada vez mais deploráveis".

- Romualdo: Qual a diferença entre preto e negro? É incorreto usar uma dessas palavras?

- Black: "Vou dar a minha opinião pessoal, porque tem vários estudos que falam da correlação e diferença entre preto e negro. A construção histórica e social brasileira nos permite entender que, como somos jogados para a margem da sociedade, o entendimento de ser preto é muito ruim. Muitas pessoas não se consideram pretas, tanto é que criaram o termo 'pardo'.

Mas não existe 'pardolândia'. Existe a África, composta por maioria de negros, que foram escravizados e levados para vários locais do mundo.

No Brasil, o termo negro veio para abarcar essas pessoas que não se entendem enquanto pretas. Eu, Black, me sinto honrado em ser considerado preto. Mas, para abarcar os pardos, que são aquelas pessoas que historicamente foram excluídas por serem pretas, a nomenclatura negra é uma prerrogativa de quando você se auto declara negro no Brasil, mas nenhum dos termos está errado.

Porém, eu, Clauderson Black, acho importante referendar que preto não é ruim, que preto é algo bom. Mas, não podemos aceitar quando a pessoa utiliza da injúria racial, do racismo, naquela tonalidade: 'Você é um preto!'.

Isso não podemos aceitar, porque é um crime contra a nossa honra. Pela construção histórica brasileira, do negro, a palavra 'negra' foi criada para abarcar essas pessoas que não se compreendiam como pessoas pretas. Existem diferenças de nomenclaturas, mas ser preto ou negro no Brasil é a mesma coisa".

- Silva: Na área da segurança privada, a maioria de nós é negra. Quando em algum evento precisamos atuar, somos agredidos verbalmente, xingados. Isso é racismo ou injúria racial? Qual é a diferença?

- Black: "A justiça brasileira é cega. Ela deveria tratar as pessoas com igualdade, mas dá várias brechas para salvar os racistas. A principal diferença do racismo para a injúria racial é a forma da penalidade. Quando você penaliza uma pessoa porque ela foi racista é um crime inafiançável, com pena máxima de 5 anos.

Já a injúria racial, na minha opinião, é 'passar um pano', 'enxugar gelo'. O racismo é a conduta discriminatória dirigida a determinado grupo. Quando entra num shopping e é perseguido pelo seu tom de pele, quando não pode utilizar certos espaços por que tem uma cor/raça diferente, isso é racismo. É basicamente aquele momento em que a gente vive num todo, quando você por ser preto e não pode utilizar certos espaços.

A injúria racial consiste em ofender a honra da pessoa. Na visão da Justiça, a injúria racial é um crime contra a honra da pessoa. Chamar a pessoa de macaco, falar que preto é isso ou aquilo, é injúria racial. A penalidade é diferente, mas, no meu ponto de vista, ambos são casos graves de racismo. São diferenças judiciais, mas ambas são ofensas graves, ofensas racistas".

- Romualdo: Fala um pouco da Unegro. Há quanto tempo a entidade foi criada, como fazer parte e fortalecer as lutas da Unegro?

- Black: "A Unegro é uma entidade que nasceu no bojo da redemocratização do Brasil, criada em 1988. Está completando 33 anos de história. É uma entidade fundamental no Brasil, para a luta antirracista. Também abraçamos as pessoas não negras que queiram lutar contra o racismo.

É uma organização que compreende que o racismo está atrelado totalmente à questão de classe social no Brasil. Ser da classe trabalhadora no Brasil é, basicamente, ser considerado negro, porque o negro/preto basicamente tem poucas oportunidades.

A Unegro é uma organização ampla, democrática, frentista,  que acredita que só com uma frente ampla, com todas e todos, vamos poder combater o racismo no Brasil e construir uma sociedade com mais igualdade social, que  garanta empregos e soberania nacional a todos brasileiros, independentemente da cor. É uma organização com grande trajetória de luta pelo povo brasileiro, que luta contra o racismo.

Convido vocês a participar do Congresso da Unegro, que vai acontecer em março do ano que vem. É muito importante contar com a contribuição dos vigilantes nesse processo tão importante para discutir o caminho para combater o racismo no Brasil.

Em nome da Unegro, agradeço pela oportunidade e convido a todas e todos para o grande ato público que será realizado em Belo Horizonte neste sábado, 20 de novembro, em defesa da população negra, da vida, da liberdade e pelo fora Bolsonaro".

Se você perdeu Programa Voz do Vigilante MG da última terça ou quer assistir novamente, basta acessar a TV O Vigilante, no site do Sindicato (www.ovigilante.org.br), nossa página no Facebook ou canal no YouTube.  

Fonte: Imprensa do Sindicato.

 

 

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