História de cada um: Vigilante de Betim é guerreira que não foge à luta

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O universo da vigilância privada é majoritariamente ocupado por homens. Mas, ainda quem em número bem menor, conta com mulheres que têm feito a diferença e valorizado a profissão.

Exemplo disso é Marilsa Carlos Oliveira, vigilante de Betim, à qual o Sindicato dos Vigilantes de Minas Gerais homenageia nesta 11ª edição da série de reportagens "História de cada um". Confira:

Marilsa, 48 anos, é casada há 8 anos e tem duas filhas, uma de 14 e outra de 4. Desde 2013, ano em que se casou, vive na antiga Capela Nova, onde já havia morado por quatro anos, entre 1996 e 2000.

Natural de Belo Horizonte, passou a infância no bairro União. No início da adolescência, mudou-se para o bairro São Gabriel e, com 12 anos, foi morar na histórica Sabará, no bairro Nações Unidas, onde permaneceu por mais de 30 anos.

Gaivota

Na oitava série, tomou gosto pelos estudos e se interessou em entender o lado político das coisas. Certa vez, um professor pediu para a turma fazer uma interpretação do livro "Fernão Capelo Gaivota" - romance de Richard Bach, publicado em 1970 -, utilizando a música Aquarela, de Toquinho. "Essa experiência mudou minha vida. Passei a me interessar por História, compreender as diferenças sociais e raciais, e não só a cantar o Hino Nacional".

Com a nova visão de mundo que começava descortinar, Marilsa passou a integrar o grêmio da escola e a acompanhar o movimento estudantil. "Fui para as ruas, participei do 'Fora Collor', tomei paulada da polícia. Passei a fazer teatro, tocar violão. Descobri que queria voar".

Mas, a necessidade falou mais alto e a jovem deixou a escola. "Tinha que trabalhar para me sustentar e ajudar meus pais. Fazia faxina, lavava roupa", lembra.

Capoeira

Na mesma época, ela se interessou pela capoeira e se inscreveu no Centro Cultural Leão, em Sabará. Logo, ganhou o codinome de "Negra Ágill", apelido que carrega até hoje. "Eu fazia de tudo, não parava. Mestre Coruja viu minha agilidade e me batizou com esse apelido", explica.

Única mulher no grupo, treinava com os meninos. "No início, sofri muito preconceito dos alunos, mas nunca dei ouvidos. A capoeira é legado, respeito pelos mais velhos e pelo ser humano, cuidado com a cultura negra. Só parei temporariamente quando engravidei das minhas filhas". 

Já são 32 anos de capoeira. Hoje, graduada com a corda roxa, Marilsa é professora da atividade no grupo Arte Capoeira Brasileira, em Betim, do qual participa há 9 anos. "Quero chegar a grã-mestra".

Futebol

Da capoeira para o futebol, foi um pulo. "Comecei com 16 anos, no 'Ordep', de Sabará. Como não havia mulheres para jogar, o técnico Pedro obrigava os homens a treinarem comigo", se diverte.

Marilsa também jogou no Aliança, na capital. Pelo time, disputou sua primeira partida oficial na Copa Centenário, em comemoração aos 100 anos de Belo Horizonte, organizada pela Federação Mineira de Futebol (FMF). No campeonato, chegou a jogar contra times como o Atlético e o Cruzeiro.

No América Futebol Clube, foi beque central, e participou do Campeonato Mineiro de 2006.

"Sempre recebia o 'gato' por desempenho e responsabilidade. Era uma das primeiras a chegar para treinar ou jogar. Frequentemente, era escalada capitã do time, pela facilidade que tinha de jogar, motivar e cuidar da equipe, saber ouvir e pelo espírito de liderança".

Hoje, ela participa do Aliadas Futebol Clube, de Betim.

Carreira

Em 1996, Marilsa foi aprovada em teste para a Polícia Militar, mas não chegou a fazer o curso por excesso de contingente. Em 2003, ela ingressou no Curso de Especialização, Preparação e Aperfeiçoamento de Vigilantes  (Cepav), na capital. "Fui a sétima mulher de Minas a fazer o curso", disse.

No setor, a vigilante prestou serviços em grandes eventos, como a Feira da Paz de Betim, shows no antigo Chevrolet Hall e jogos no Mineirão, para empresas como a Anjos da Guarda, Arizona e BH Forte. Também trabalhou no banco Bradesco, em Belo Horizonte, pela VIC, e em um condomínio, como ascensorista, auxiliar administrativo e administradora.

Em 2019, aos 47 anos, Marilsa obteve o diploma de segundo grau, por meio do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja). "Ainda pretendo retomar os estudos. Meu objetivo é ser geriatra".

Ativista

E ela não para: em 2012, disputou uma vaga na Câmara Municipal de Sabará. "Como candidata a vereadora, busquei ampliar o alcance do trabalho social que faço há muitos anos. Com minha experiência, sei que dá para fazer algo bacana pela população menos favorecida. Minha prioridade é a educação, pois com educação vamos a qualquer lugar. Uma pessoa bem instruída sabe onde buscar saúde, segurança e cultura".

Atualmente, Marilsa é coordenadora de Cultura da União de Negros pela Igualdade em Minas Gerais (Unegro); vice-presidenta da Associação de Apoio e Integração da Mulher (AAIM); e diretora do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade de Betim (Compir).

Sindicato

Consciente do seu papel na sociedade e na profissão, Marilsa sempre participou das atividades sindicais. "Por mais de dez anos, acompanhei caravanas a Brasília organizadas pelo Sindicato por direitos como o risco e vida (adicional de periculosidade de 30%). Também participei de lutas importantes, a exemplo da conquista do colete balístico e do banquinho", enumera.

Segundo ela, o Sindicato é fundamental para a categoria e a classe trabalhadora. "Toda categoria tem seu representante, e o Sindicato é quem nos representa, defende nossos direitos e luta por mais conquistas para os vigilantes. Manter o Sindicato é um dever de todos nós".

Reciclagem

Desempregada, esse ano Marilsa abriu um ferro velho em Betim, no bairro Itacolomi, onde comercializa sucata e materiais recicláveis. "Com a pandemia, os trabalhos de vigilante em eventos foram suspensos. Com o ferro velho, além de garantir a sobrevivência de minha família, tenho ajudado outras pessoas sem renda da comunidade. Minha meta é criar uma cooperativa de reciclagem para ajudar as pessoas carentes e contribuir na preservação do meio ambiente", revela.

Dignidade

De onde vem tanta disposição de luta? "Tudo isso, herdei da minha da mãe. Com ela, aprendi que o sonho serve para nos fazer chegar ao topo e ver que tem um horizonte".

A mãe de Marilsa, Eva de Oliveira da Silva, a "dona Eva", 70 anos, seu grande exemplo de vida, vive em Sabará. Ainda jovem, veio de Governador Valadares para a capital mineira.

"Minha mãe não teve estudo, mas sempre foi uma mulher batalhadora. Quando chegou a idade, se aposentou sem precisar de ninguém, pois sempre pagou o INSS por conta própria".

O pai que a criou, "seu" José Pereira da Silva, também de 70 anos, conheceu sua mãe e logo casou-se com ela, assumindo a criação de seus dois filhos, Marilsa e um irmão. Da união, nasceram mais quatro filhos.

"Meus pais completaram 39 anos de casados. Mesmo não sendo meu pai biológico, ele fez tudo por mim e por meu irmão mais velho, assim como para seus outros filhos", conta.

A vida, entretanto, não foi fácil para a família, principalmente para "dona Eva", que teve seis filhos. Mas, não faltou dignidade.

"Minha mãe fazia faxina e lavava roupa para fora, meu pai era pedreiro. Mesmo com todas as dificuldades, tivemos uma boa educação e pudemos estudar e nos formar. Todos somos profissionais de segurança privada. Dois dos meus irmãos também são advogados e uma é assistente social", diz com orgulho.

Outras histórias

Para conhecer as outras histórias da série, iniciativa do Departamento de Imprensa, acesse o Facebook ou o site do Sindicato: www.ovigilante.org.br.

Fonte: Imprensa do Sindicato. 

 

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